A Generosidade Compensa?
Muitos anos atrás, minha esposa fabricava perfumes artesanalmente.
Para descobrir todos os segredos foram necessárias muitas conversas,
visitas a diversas pessoas, muitas leituras. Um processo muito
desgastante, pois as informações só eram conseguidas a muito custo, e
às vezes obtinhamos até informações erradas.
Entretanto, em uma de nossas visitas a Belo Horizonte, descobrimos
uma pequena loja onde o dono nos fornecia todas as informações
que buscavamos e até mesmo conhecimentos que nem sabíamos existir.
Convidou-nos a visitar sua fábrica, onde nos mostrou os produtos que
fabricava e como os fabricava. Não havia pergunta que deixasse sem
resposta e muitas vezes nos oferecia informação espontaneamente. Esta
atitude em muito nos surpreendeu, pois em nossa peregrinação em
busca de informação, as pessoas não eram lá muito cooperativas.
Em determinado momento não resistimos mais e confessamos nossa
surpresa com tamanha boa vontade em compartilhar tanto conhecimento. A
resposta foi não menos surpreendente. O dono da loja nos disse que só
começou a vencer na vida a partir do momento em que começou a
compartilhar com os demais tudo o que sabia.
Alguns anos depois, descobri na Internet algo não menos
surpreendente. Sempre gostei muito de livros de ficção científica e
acabei indo parar no site da Editora Baen, muito conhecida pelos fãs
do genero. A Editora Baen |
disponibiliza gratuitamente para download em seu site
diversos livros de autores famosos. Qual a razão para se
dar gratuitamente, através da Internet, trabalhos que são
o produto principal de uma empresa? Lucro, é claro. Esta
explicação encontra-se no próprio website. Um livro de
ficção científica, ao ser publicado, vende por volta de
5.000 exemplares no primeiro mês e mantém uma boa média
durante o primeiro ano, vendendo no total algo em torno de
cinquenta mil exemplares. As vendas são declinantes e por
volta do segundo ou terceiro ano vende-se algo em torno de
5, 10 exemplares por mês. O primeiro autor da editora Baen
que ousou aderir ao esquema de publicação de sua obra na
Internet, para download sem custo, viu as vendas de seus
livros crescerem. Não apenas as vendas do livro publicado
na Internet mas do conjunto da sua obra. O livro publicado
na Internet conta com a poderosa propaganda boca a boca
(ou mouse a mouse). Se o material for de qualidade, a
boa notícia espalha-se com uma velocidade inacreditável,
trazendo um maior reconhecimento para o autor e sua obra e,
consequentemente, vendas maiores.
Mas não é só isto. Também no
site da editora Baen
encontramos relatos de diversas pessoas que só a partir
da publicação dos livros em formato digital conseguiu ter
acesso a este material. Deficientes visuais e pessoas com
diversos outros tipos de problemas físicos escreveram
relatando suas experiências. A obra em formato digital
permite que a tamanho da letra seja redimensionado para uma
visualização mais adequada, sintetizadores de voz podem ser
usados. Um leitor relatou que, devido a problemas ósseos,
não conseguia virar as páginas de livros comuns. Este tipo
de uso não havia sido antecipado pelos patrocinadores
do projeto na Editora Baen. Por esta razão as obras são
publicadas em diversos formatos, como RTF, texto puro,
html e diversos outros, para que o maior número possível
de pessoas possa ser contemplado.
Mas provavelmente o exemplo mais eloquente de que a generosidade
compensa é o fenômeno do software livre, cuja face mais visível é o
sistema operacional Linux. Criado em 1991 por Linus Torvalds, o Linux
é hoje, 13 anos depois, um sistema adotado e patrocinado por gigantes
da informática como IBM, Dell, HP e muitos outros fabricantes.
A grosso modo, o mundo da informática é hoje dividido entre duas
facções. Uma delas defende o lucro acima de tudo e de todos, com o
objetivo de impor seus padrões e criar uma dependência asfixiante, e o
mundo do software livre.
Os dois movimentos são extremamente complexos e suas motivações
possuem inúmeras facetas. Seria um ingenuidade minha ter a pretensão de
querer explicar algo tão amplo em um pequeno artigo como este.
Entretanto, gostaria de tentar apresentar alguns fatos e aguçar a
curiosidade do leitor.
Em 1985, assisti a uma palestra apresentada por um funcionário da
IBM, onde ele defendia que em cinco anos, por volta de 1990,
os computadores em breve iriam dispensar os seres humanos para
sua administração e seriam capazes de realizar a maioria de
suas tarefas sozinhos, sem acompanhamento. É claro que isto não
ocorreu. Naquela época os computadores eram usados principalmente
em bancos, processamento de folhas de pagamento e alguns outros
usos mais especializados. Os computadores, que em 1985 eram
privilégio apenas de empresas poderosas, podem ser hoje adquiridos
com grande facilidade e estão ao alcance de uma grande parcela
da população. Esta universalização trouxe consigo uma aplicação
mais generalizada dos computadores em praticamente todos os
setores da vida moderna. Não existe hoje uma empresa que não
tenha ou pense em ter um website para contato com seus clientes
e fornecedores. Universidades publicam sua produção acadêmica na
Internet, alunos já fazem suas matrículas de onde estiverem,
consultam bibliotecas e muito mais. Consultórios médicos,
lojas de material de construção, padarias, lanchonetes, enfim,
praticamente em qualquer ponto do setor econômico você encontrará
um computador. Enfim, um dos grandes pilares em que se sustenta a
sociedade moderna é a informática (computadores e redes).
Dentro deste cenário, volto a confrontar os dois movimentos que
criam a inteligência que mvimenta os computadores: o movimento do
software proprietário e o movimento do software livre. O software
proprietário nos entrega programas de computadores que executam
determinadas tarefas, porém não nos dizem como os computadores foram
instruídos a fazer isto. Em caso de problemas os únicos que podem
consertar o erro são os fabricantes. Nós, usuários, não podemos
consertar nada. É o mesmo que comprar um carro em que o capô venha
soldado. Em caso de problemas temos que mandar o carro para que a
fábrica o conserte. Inconcebível, não? Pois então, com os programas
de computador que você usa ocorre exatamente o mesmo.
Com o outro movimento, do software livre, o que está em jogo é
o desafio de solucionar problemas criativamente, a engenhosidade,
ajudar o seu vizinho e, em última instância, o prazer puro e simples.
Além do programa pronto para ser executado em seu computador, esta
categoria de programas, os programas livres, são distribuídos
juntamente com sua receita, o código fonte. O próprio usuário, por si
só, ou orientado por outros, pode modificar o programa e
redistribui-lo para quem bem entender. O mais importante é a liberdade
de se usar, modificar e distribuir os programas. A liberdade que é
recebida não pode ser retirada dos demais. Se eu obtenho um programa
livre tenho por obrigação mantê-lo livre, não posso restringir o seu
uso.
No livro Segredos e Estratégias de Sucesso da Microsoft,
de autoria de David Thielen, logo no
início se comenta que a empresa não tem uma definição de
missão escrita, mas ao perguntarmos a qualquer um de seus
funcionários qual o seu objetivo final, qualquer um deles
dará a mesma resposta: conquistar o mundo.
Os tempos certamente mudaram. Para se conquistar o mundo não é mais
necessária a mobilização de exércitos, massacres e destruição.
Entretanto a conquista do mundo certamente envolve a dominação e
a supressão de liberdades. Esta declaração de missão não escrita
certamente traz uma mensagem bastante reveladora.
Estes dois movimentos representam uma situação paradoxal. De um
lado uma empresa que praticamente conquistou o mundo da computação,
com práticas frequentemente desleais (basta consultar na Internet
o histórico dos diversos processos movidos contra ela) e do outro,
milhares de pessoas espalhadas pelos cinco continentes criando
soluções tecnológicas que hoje fazem frente e até mesmo ameaçam
este império, muitas vezes sem ganhar nada por isto, com o simples
objetivo de ajudar seu próximo ou pelo simples prazer de criar algo novo.
Diversas empresas se estruturam hoje com sucesso a partir da
filosofia do software livre. Existem profissionais de grande
reputação, disputados a peso de ouro por empresas de renome, e que
se dedicam à criação de software livre. Muitos outros embora não
remunerados por seu trabalho, dedicam-se também ao software livre
pelo prazer que derivam deste trabalho.
Emfim, é perfeitamente possível garantir uma forma de vida digna
preservando a integridade moral e valores elevados. Os exemplos
citados neste artigo são apenas alguns entre muitos que poderiam
reforçar esta mensagem.
A crença de que prosperidade e generosidade são conceitos opostos
ainda é bastante comum nos tempos de hoje. Bem, talvez seja a hora de
revermos nossos conceitos ...