Felicidade
© Rubens Queiroz de Almeida
Em viagem pela China, um turista notou um senhor bastante
idoso empenhado na confecção de um lindo painel, que
cobria uma parede enorme. O trabalho estava pela metade,
longe de sua conclusão. Entretanto, ao observar o velho
homem trabalhar, ele se convenceu de que aquela seria uma
tarefa que nunca seria completada. Para cada ponto tecido,
o ancião, dava dois passos para trás, contemplava o seu
trabalho por algum tempo, e frequentemente desmanchava
tudo o que tinha feito e mais alguma coisa.
Não se contendo, o turista caminhou até o ancião e
lhe disse que neste ritmo ele nunca iria completar o
trabalho. O ancião respondeu com um sorriso e explicou:
"Primeiramente, este trabalho não foi começado por mim. Em
segundo lugar, o meu único objetivo ao tecer este painel
é tornar impossível que qualquer pessoa possa dizer onde
foi que eu comecei."
Esta é uma das minhas histórias favoritas, principalmente
por ir de encontro a tudo o que o nosso estilo de vida
prega. Precisamos fazer muito, em pouco tempo. Devemos
receber o crédito total por todas as nossas realizações.
Se este crédito não puder ser dado, não nos interessa o
trabalho. O trabalho por seu prazer intrínseco está se
tornando praticamente uma utopia. A meta final é o poder
e o dinheiro, mesmo que para isto se precise sacrificar
a saúde, os relacionamentos, e até mesmo a sanidade.
Um dos questionamentos mais frequentes que se fazia à
escola Summerhill era se seus alunos eram bem sucedidos em
sua vida profissional. A escola Summerhill se diferencia
das demais por permitir que seus alunos decidam sobre suas
vidas com total autonomia. Assistem aulas se quiserem e
decidem sobre os rumos da escola em assembléias semanais
onde os professores não podem opinar. Certamente a escola
teve alunos que obtiveram grande destaque em suas áreas
de atuação, mas sua maior realização, nas palavras de
seu fundador, A. S. Neil, foi ter propiciado a inúmeras
crianças um ambiente em que puderam desenvolver sua
auto-estima, seu valor, confiança e felicidade.
Qual afinal é o papel da educação? Preparar nossas
crianças para entrar na corrida de ratos ou ensiná-las
a buscar a realização pessoal e a felicidade, mesmo que
isto signifique menos poder e posses materiais?
O mais triste é que somos condicionados desde muito
jovens a agir desta forma e a perseguir estes ideiais
vazios. Valorizamos o primeiro da classe, quando o
nosso objetivo deveria ser fazer com que todos fossem
os primeiros.
Esta formação, ou lavagem cerebral, que começa nas escolas,
segue firme no mundo empresarial. Curiosamente, muito do
que as empresas entendem como incentivo ao funcionário,
cria um clima de ressentimento e competitividade
destrutiva. Os grupos se fecham em si mesmos e não
deixam vazar nenhuma informação para os grupos rivais.
Colaboração não existe, é cada um por si.
Aqueles que se entregam à corrida de ratos são seres que
dependem de algo externo para sustentar sua imagem. Passam
a vida inteira construindo uma imagem de si mesmos atrelada
a uma empresa. Não existem sem os símbolos do poder e
desmoronam quando isto lhes é tirado.
Ninguém descobriu ainda o propósito de nossa passagem
por este planeta. Muitos julgam, e eu me incluo entre
eles, que o objetivo maior deve ser a busca de uma vida
equilibrada e feliz. Infelizmente o nosso modo de vida
nos leva exatamente no sentido contrário, para fora de nós.
Para encerrar este artigo, gostaria de reproduzir aqui uma pequena
história, que ilustra bem a mensagem deste artigo.
Felicidade
Um dia, os deuses do mundo se reuniram e decidiram criar
um homem e uma mulher. Planejaram criá-los à sua imagem
e semelhança. Então, um deles disse:
-- Esperem! Não vamos simplesmente criá-los, libertá-los e
esquecê-los! Se vamos criá-los à nossa imagem e semelhança,
irão ter um corpo igual ao nosso, força e inteligência
idênticas às nossas! Se vamos criá-los à nossa imagem e
semelhança, logo, eles terão os nossos poderes e os nossos
privilégios de rei! Devemos pensar em algo que os diferencie
de nós, senão estaríamos criando novos deuses! Devemos
tirar-lhes algo, mas o que poderíamos tirar?
Depois de muito pensarem, chegaram a conclusão que deveriam
tirar-lhes a FELICIDADE. Entretanto, o problema era onde
escondê-la para que nunca a encontrassem.
Outro deus ainda argumentou:
-- Os homens que perdem o segredo da FELICIDADE ora se
isolam cabisbaixos, ora se desesperam, ora se encolerizam
Trata-se, portanto, de uma situação extremamente
melindrosa; merece, pois, toda a nossa atenção. Ou seja,
a desintegração de nosso núcleo de poder liberaria o
caos, logo forneceria elementos decisivos para uma futura
rebelião de deuses! É uma situação muito delicada; merece,
pois, toda a nossa atenção e cuidado!
Então os deuses começaram a discutir
-- Vamos esconder a FELICIDADE na montanha mais alta da
Terra, pois ali eles terão dificuldades de encontrá-la! Não
te recordas que demos força a eles? Se mantivéssemos a
FELICIDADE em tal local, logo eles poderiam encontrá-la! Ou
seja, alguém conseguiria subir até o topo desta montanha
e poderia saber o lugar em que ela está!
-- Então vamos ocultá-la no fundo do mar, pois o caminho
é turvo, difícil e perigosíssimo! Também não seria
um bom lugar, pois lhes demos inteligência e alguém
certamente criaria alguma máquina que os faria submergir
e encontrá-la.
-- Quem sabe, possamos escondê-la em um planeta de uma
galáxia longínqua! Também não seria eficaz, pois lhes
demos a curiosidade e a ambição; portanto, irão querer
ultrapassar limites e logo criarão algo para voar pelo
espaço e certamente a encontrarão.
Depois de muito discutirem e não chegarem a nenhuma
conclusão, o único deus que não havia falado, pediu a
palavra e lhes disse:
-- Creio que sei onde poderíamos colocar a FELICIDADE,
ou seja, em um lugar que eles nunca descobrirão!
Um deus que era muito gozador argumentou:
-- Meu amigo ora desvia da discussão em pauta, ora navega
pelas nuvens; portanto, está tomando a nuvem por Juno e
confundindo a aparência com a realidade; devemos, portanto,
auxiliá-lo e confortá-lo.
Todos ficaram espantados e perguntaram ao deus que não
havia falado:
-- Então nos diga, aonde??
E ele lhes respondeu:
-- Colocaremos a FELICIDADE dentro deles, pois
estarão tão preocupados buscando-a afora, que nunca a
descobrirão. Caríssimos, os homens sempre estão no caos
Sempre discordam de tudo, sejam as discordâncias ligeiras,
sejam de peso. Estejamos, pois, atentos!
Todos ficaram de acordo, e desde então tem sido assim. O
homem passa a vida toda buscando a FELICIDADE sem saber
que a traz consigo.