O Prazer da Leitura
© Rubens Queiroz de Almeida
A leitura para mim sempre foi algo mágico. Mesmo antes de saber ler,
folheava revistas em quadrinhos, montando as histórias na minha cabeça
e sempre que conseguia achar alguém paciente o suficiente, pedia que
lessem as histórias para mim. Admirava, com inveja, quem já sabia ler,
louco de vontade de ir para a escola e aprender o significado daquelas
letrinhas enigmáticas.
Aprender a ler foi para mim uma libertação. Não mais dependia de
ninguém para entrar em outros mundos, aprender, conhecer o mundo. Com
o auxílio dos livros e da minha imaginação, conseguia ir onde queria.
Uma das lembranças mais vívidas que tenho de minha infância, aos
seis anos, logo após aprender a ler, é de uma tarde que passei,
no quarto de meus pais, lendo o livro Reinações de Narizinho,
de Monteiro Lobato.
Eu me sentia como se estivesse vivendo todas aquelas situações
fantásticas, visualizando as aventuras da turma toda do Monteiro
Lobato. O Visconde de Sabugosa, Pedrinho, Narizinho, Emília, e todos
os demais.
Eu literalmente me transportei para aquele mundo, ouvindo os diálogos,
vendo as cenas, ficando alegre, triste e até mesmo, na inocência
da minha infância, exasperado por não poder interferir diretamente na
história.
O que realmente ficou daquela tarde, algo que nunca me esqueço, foi a
intensidade de meu envolvimento naquela experiência.
Li tudo que podia do Monteiro Lobato, que sempre me encantou em tudo
que fez. Na minha adolescência conheci Érico Veríssimo, Victor Hugo,
José de Alencar, Robert A. Heinlein (o melhor autor de ficção
científica) e muitos, muitos outros.
Muitos anos mais tarde, em minha adolescência, continuava um leitor
voraz. Ficar sem ler alguma coisa, qualquer coisa que fosse, era para
mim uma tortura. Estava sempre querendo aprender alguma coisa, ou
lendo ou conversando com os mais velhos, que me empolgavam com suas
histórias e suas experiências.
Uma coisa entretanto me incomodava muito. Não me recordava em detalhes
do que lia e julgava que, por não absorver os detalhes, a minha
leitura era inútil.
Tentei então corrigir o que julgava ser um enorme problema. Prometi a
mim mesmo passar a ler com muita atenção para não jogar fora o meu
tempo. Julgava então, que para poder entender melhor o que lia, devia
ler devagar, relendo tudo o que não compreendesse 100%.
Com esta receita na cabeça eu tentei. Mas foi um inferno. Ler desta
forma é extremamente chato. Na época pensei que o problema era comigo,
que nunca conseguiria ler algo com um nível de retenção adequado. O
prazer virou tortura. Deveria continuar perdendo o meu tempo lendo
tudo superficialmente? Valeria a pena?
Desestimulado, parei de ler com a voracidade de costume. Praticamente
parei. Mas não por muito tempo. Felizmente, para mim, a leitura é
uma necessidade básica. Voltei então a ler da forma que gostava,
no ritmo que me convinha.
Para que me privar de uma experiência tão agradável? Tudo bem, eu
julgava que havia algo errado com a maneira como lia, mas se era algo
que me fazia bem, por que então desistir?
Decidi aceitar o que eu, naquela época percebia como limitação,
e seguir em frente com as minhas leituras irregulares, sem método,
e muito prazerosas. Se os resultados não são palpáveis, tudo bem. Eu
gosto e pronto.
Esta era a minha percepção aos vinte anos. Entretanto, hoje eu
percebo o quanto estava errado. Mesmo a minha leitura errática e
desorganizada construiu uma base de conhecimentos que me dão hoje
os fundamentos para poder pensar com mais clareza e ter facilidade
de expressão. Com a leitura construimos referenciais, pontos de
apoio, que por sua vez, nos auxiliam a assimilar conhecimento mais
facilmente. É um campo que vamos fertilizando devagar onde, com o
passar dos tempos, as idéias crescem mais facilmente.
Acho que ao longo de todos estes anos, tudo o que eu li foi
encontrando um lugar dentro da minha mente e toda esta informação,
de uma forma ou de outra, foi se recombinando, me auxiliando a
formar uma visão de mundo e facilitando a minha compreensão de
muitas coisas. Algum cientista certamente já deve ter uma explicação
aceitável para este fenômeno, mas a minha visão certamente é mais
simples.
É claro que não estou inferindo que a leitura metódica e organizada
está errada. De forma alguma. O que quero dizer é que somos todos
diferentes e cada um de nós possui formas peculiares de se relacionar
e interagir com o mundo. Alguns só derivam prazer da leitura pausada,
anotando os pontos interessantes. Outros, como eu, gostam de ler
muito, sem atenção para o detalhe. Possivelmente não existam duas
pessoas iguais no tocante a este aspecto. E certamente não existe nada
errado com isto.
A nossa sociedade sempre terá um modismo do momento, determinando a
melhor maneira de se fazer alguma coisa. Os que estiverem fora da
corrente sempre serão, de uma forma ou de outra, forçados a seguir o
fluxo comum, o que sempre gera sofrimento para os que são diferentes.
A história, entretanto, nos ensina que tudo muda. Os pintores mais
famosos e aceitos pela sociendade no tempo de Van Gogh hoje são quase
que inteiramente desconhecidos. O trabalho do próprio Van Gogh era
ridicularizado, chegando ao ponto em que ele nem mesmo conseguia dar
suas obras como presente. Ninguém aceitava e quando aceitava escondia
bem escondido devido ao ridículo associado com aqueles quadros tão
vibrantes e coloridos. Não preciso continuar, pois o final da história
todos conhecemos.
Retornando ao tema da leitura, em minhas aulas de inglês instrumental,
sempre fiz questão de oferecer a maior diversidade possível de
títulos. Insistia sempre com meus alunos que a concepção de que, uma
vez iniciado um livro devemos ir até o final, é uma completa idiotice.
Gastar o pouco tempo que temos lendo algo que não nos dá prazer é,
além de uma enorme perda de tempo, uma tremenda burrice.
Não existe nada de errado na diversidade. Não se apresse em julgar
que a forma como você faz algo está errada. Quem está certo hoje
pode estar errado amanhã. Só o tempo dirá o que é certo ou errado. O
grande juiz é você.
Mas não se esqueça, leia muito e leia o que você gosta.