Como tudo começou
A lista EFR começou como um suplemento às aulas de um curso de inglês
instrumental para funcionários da Unicamp que foi iniciado em 1997. O
objetivo principal era fornecer meios que facilitassem aos alunos o
contato diário com a língua inglesa, permitindo o aumento do vocabulário
de forma simples e divertida.
O cadastramento na lista foi aberto ao público em geral e tem hoje
mais de 10.000 assinantes.
A metodologia seguida no programa de qualificação oferecido na Unicamp
foi inicialmente descrita no artigo A Reconstrução da Torre de Babel
(logo a seguir) e mais tarde nos livros As Palavras Mais Comuns da Língua Inglesa e no livro Read in English: Uma Maneira Divertida de Aprender Inglês.
A Reconstrução da Torre de Babel
Diz a Bíblia que muitos anos atrás todos os habitantes da Terra se
uniram para construir uma torre que chegasse até o céu, para tornar seu
nome célebre e impedir que fossem espalhados pelo mundo. Para punir os
homens por sua ambição demasiada, Deus confundiu sua linguagem e depois
os dispersou pelo mundo.
Ainda hoje os povos da Terra falam uma imensidão de línguas
diferentes. Na Internet entretanto, apesar dos muitos povos que autilizam,
existe um meio de comunicação comum. Da mesma forma que os computadores
se comunicam independentemente de cor e raça, ou melhor, de fabricante e
protocolo de comunicação, também os internautas possuem uma linguagem
comum: a língua inglesa. Será a Internet uma nova Torre de Babel,
construída para reunificar eletronicamente os habitantes deste lindo
mundo azul?
É claro que nem todos que utilizam a Internet compreendem a língua
inglesa. Porém mais de 80% dos documentos e das comunicações feitas
através da Internet encontram-se em inglês. Apenas 0,7 % do oceano de
informação que é a Internet está em português. É perfeitamente possível
usar a Internet e se divertir muito navegando apenas por sites escritos em
português. Fazer isto entretanto é o equivalente a ir à praia, não entrar
na água e ficar se molhando com um baldinho de água que alguém encher para
você. O que fazer? Aprender inglês é difícil e demora muitos anos. Como
então adquirir o domínio desta ferramenta tão essencial à utilização
plena da Internet? Realmente, para se ler, falar, escrever e ouvir com
fluência a língua inglesa são necessários de seis a oito anos de estudo
constante. Para que aprender tanta coisa se o mais importante é apenas
ler? É muito mais fácil dominar um dos aspectos de um idioma (leitura)
do que todos os quatro simultaneamente (ler, ouvir, falar e escrever). A
Internet possui muito conteúdo interativo, onde a capacidade de se falar
e escrever bem a língua inglesa certamente é uma grande vantagem, mas o
mais importante certamente é saber ler. Ler para utilizar a informação
existente na Internet para aprender, resolver problemas pessoais ou
profissionais, se divertir, enfim, para uma infinidade de propósitos.
Como aprender a ler? É raro encontrar um curso de inglês onde se ensine
o aluno apenas a ler. Só vendem o pacote completo, o que é totalmente
insensato. Se precisamos investir vários anos para dominar o idioma em
todos os seus aspectos, aprender a ler certamente demora muito menos. Em
apenas quatro meses é possível obter uma compreensão razoável do idioma
que nos permite começar a compreender textos em inglês.
Mas porque a leitura é mais fácil de se dominar? A própria Internet
nos dá a resposta. Em um estudo realizado em 1997, realizamos um
trabalho para determinar as palavras mais comuns da língua inglesa e
seu percentual de ocorrência. Para este estudo utilizamos os livros
online do Projeto Gutemberg. Este projeto, integrado por voluntários,
tem por objetivo digitalizar obras de literatura cujos direitos autorais
tenham se expirado. Nos Estados Unidos uma obra é colocada no domínio
público 60 anos após a morte do autor. Obras de autores como Jane Austen,
Conan Doyle, Edgar Rice Burroughs, e muitos outros estão disponíveis
gratuitamente na Internet. De posse destes livros, 1600 ao todo na época
da pesquisa, fizemos então nossos cálculos. Os 1600 livros combinados
geraram um arquivo de 680 MB contendo aproximadamente sete milhões de
palavras. Os resultados foram bastante surpreendentes. As 250 palavras
mais comuns compõem cerca de 60% de qualquer texto. Em outras palavras,
se você conhece as 250 palavras mais comuns, 60% de qualquer texto em
inglês é composto de palavras familiares. Para facilitar ainda mais
a nossa tarefa os cognatos, que são as palavras parecidas em ambos os
idiomas (possible e possível, por exemplo), totalizam entre 20 e 25% do
total das palavras. Aí já temos então 80 a 85% do problema de vocabulário
resolvido. Se subirmos o número de palavras mais comuns a 1.000, chegamos
a 70%. Somando a este valor os cognatos chegamos a valores entre 90 a 95%
de um texto.
É claro que 90 ou 95% ainda não chega a 100%. Como fazer com o restante
das palavras? Mais uma vez, usamos nossa intuição (lembra-se que nossa
intuição está correta em 99,999% das vezes?). Pensemos em nosso texto
como um enigma a ser desvendado. Possuímos alguns elementos familiares,
as palavras que conhecemos, e outros que nos são desconhecidos. Devemos
deduzir, por meio de nossa intuição, de nossos conhecimentos anteriores,
o que as palavras desconhecidas podem significar. Não precisamos nos
preocupar com todas as palavras, apenas com aquelas que desempenhem
um papel importante no texto. Quais são elas? Se uma palavra aparece
com relativa frequência em um texto, ela certamente desempenha um papel
importante na compreensão do todo. Se uma palavra aparece apenas uma vez,
muito provavelmente não precisaremos nos preocupar com ela.
O maior problema é que tal enfoque é encarado de forma suspeita pela
maioria das pessoas. Como é possível, ignorar uma palavra desconhecida
e continuar lendo como se nada houvesse acontecido? O que estamos
propondo não é nada absurdo. Qual foi a última vez em que consultou um
dicionário? Toda vez que encontramos uma palavra desconhecida vamos
em busca do dicionário? Muito provavelmente não. O que acontece é
que, como a nossa familiaridade com o português é grande, na hipótese
de depararmo-nos com uma palavra desconhecida, o seu sentido, dado o
contexto que a cerca, será facilmente deduzido. Isto tudo praticamente
sem mesmo nos darmos conta do ocorrido. A não ser que nos proponhamos a
tarefa de parar a cada vez que encontrarmos uma palavra desconhecida,
a nossa leitura se dá com frequência sem interrupções. As palavras
desconhecidas são intuídas, quase que subconscientemente, e passam a
integrar o nosso vocabulário. Considerando-se que o vocabulário de um
adulto consiste de aproximadamente 50.000 palavras, é ridículo imaginar
que tal conhecimento tenha sido adquirido através de 50.000 visitas
ao dicionário. Este vocabulário foi adquirido, em um processo iniciado
em nossa infância, de forma contínua e através da observação do nosso
ambiente, observando outras pessoas falarem, prestando atenção nas
palavras utilizadas em determinadas situações e também através da leitura.
A nossa estratégia para o domínio da língua inglesa para leitura
é exatamente aquela utilizada há milhares de anos, com excelentes
resultados, pela raça humana. Aprendizado natural, seguindo nossos
instintos e pela interação com o ambiente que nos cerca.
Como vimos, o domínio das palavras mais frequentes da língua inglesa,
pode nos ajudar a dar um impulso substancial em nosso aprendizado. Nesta
listagem as palavras não estão organizadas alfabeticamente, mesmo porque
não é nosso objetivo reproduzir aqui um dicionário. Também não incluímos
todos os significados possíveis das palavras apresentadas. Todas as
palavras são apresentadas em contexto, em exemplos de utilização. Não
fornecemos a definição da palavra. Para cada palavra são listados em
média três exemplos de utilização, com a respectiva tradução.
É muito importante ressaltar que estas palavras não devem ser
memorizadas de forma alguma. O ser humano não funciona de forma semelhante
ao computador, onde as informações podem ser armazenadas de qualquer
forma, e ainda assim estão disponíveis em milésimos de segundos quando
necessitamos. O ser humano, para reter alguma informação, precisa situá-la
dentro de um referencial de conhecimentos. A informação nova precisa
se integrar à nossa visão do mundo, à nossa experiência prévia. Apenas
desta forma podemos esperar que o conhecimento adquirido seja duradouro. A
maioria de nós certamente já vivenciou situações em que dados memorizados
desapareceram de nossa memória quando não mais necessários. Ao contrário,
tudo que aprendemos ativamente, permanece presente em nossa memória de
forma vívida por muitos e muitos anos.
Embora esteja sendo fornecida uma lista de palavras, não adote de
forma alguma o procedimento padrão de memorização, que é a repetição
intensiva dos itens a serem memorizados. É certo que cada um de nós possui
estratégias distintas para lidar com o aprendizado, mas eu gostaria de
sugerir uma forma de estudo que certamente funciona.
Primeiramente, não tenha pressa. Não memorize, procure entender
os exemplos. Para cada palavra apresentada, leia os exemplos e suas
respectivas traduções. Não se preocupe em reter na memória o formato
exato das frases e nem de sua tradução. O objetivo é apenas compreender
o significado da palavra apresentada e apenas isto. Uma vez compreendido
este significado o objetivo foi alcançado.
Em segundo lugar, procure ler apenas enquanto estiver interessado. Não
adianta nada ler todas as palavras de uma vez e esquecer tudo dez
minutos depois. Se nos forçarmos a executar uma atividade monótona por
muito tempo, depois de alguns momentos a nossa atenção se dispersa e
nada do que lemos é aproveitado. Eu sugiro a leitura de dez palavras
diariamente. Caso você ache que 10 palavras diárias é muito, não tem
importância, este número é sua decisão. Se quiser ler apenas uma palavra,
o efeito é o mesmo. Irá demorar um pouco mais, mas chegar ao final é o
que importa. É só não esquecer, você deve LER as palavras e NUNCA tentar
memorizar as palavras e os exemplos.
E finalmente, faça revisão. No primeiro dia leia e entenda dez
palavras (ou quantas julgar conveniente). No segundo dia leia mais
dez palavras e faça a revisão das dez palavras aprendidas no dia
anterior. No terceiro dia, aprenda mais dez palavras e revise as vinte
palavras aprendidas nos dias anteriores. E assim por diante até o último
dia, onde aprenderá as últimas dez palavras e revisará as 240 palavras
anteriores. Muito importante, por revisão não quero dizer que se deve
fazer a leitura de todas as palavras e exemplos anteriores. As palavras
mais frequentes estão grafadas em tipo diferente e em negrito, para que
possamos localizá-las facilmente na página. Apenas examine as palavras
anteriores em sua revisão. Caso não se recorde de seu significado,
então, e apenas então, leia os exemplos. A revisão é extremamente
importante. Nós realmente aprendemos quando revisamos conceitos aos quais
já fomos expostos. Procedendo desta forma, tenha certeza de que tudo
o que aprendeu será absorvido de forma permanente, constituindo a base
fundamental de tudo que irá aprender em seus estudos da língua inglesa.
Caso a sua motivação seja realmente alta e você queira reler todos os
exemplos já estudados, vá em frente. Como você pode notar, os exemplos
empregam um vocabulário bastante rico. A leitura mais frequente dos
exemplos fará com que ao final do estudo o seu vocabulário tenha se
enriquecido muito além das 750 palavras básicas.
Outro ponto importante é a questão do estudo da gramática. A gramática,
ou o estudo da estrutura da língua, deve ser apenas para ajudar o aluno
a identificar as construções verbais. Não é necessária, para fins de
aprendizado da leitura, a memorização de estruturas gramaticais. Como já
afirmado, o nosso aprendizado se dá de forma natural. Da mesma forma que
uma criança não tem aulas de gramática para aprender sua língua materna,
nós também não devemos nos preocupar com este aspecto em nosso estudo. A
leitura dos exemplos das palavras mais comuns irá lançar os fundamentos
iniciais do conhecimento da estrutura da língua inglesa.
Resta agora esclarecer um ponto, que é a desculpa favorita de todos
nós nos dias de hoje: a falta de tempo. Tempo certamente é fácil de se
encontrar para fazer aquilo que nos dá prazer. Para resolver o problema de
tempo para este estudo, pense nesta atividade como algo prazeiroso e que
lhe trará benefícios enormes, tanto no campo pessoal como profissional. E
além do mais, o aprendizado e a revisão das palavras pode ser feito
diariamente em não mais de quinze minutos. Se levarmos em conta que os
intervalos comerciais em programas de televisão geralmente duram entre
quatro a cinco minutos, todo o tempo necessário para este estudo pode
ser encaixado nos intervalos de sua novela favorita, certo?
Então, mãos a obra. Depois que você conhecer as 250 palavras mais
comuns da língua inglesa você poderá verificar como o aprendizado da
leitura da língua inglesa se tornam muito mais fácil. Nesta lista foram
incluídas 750 palavras. Faça um esforço e tente conhecer a todas elas. A
sua tarefa vai ficar ainda mais fácil.
Nos anos de 1996 e 1997 a Diretoria de Recursos Humanos da
UNICAMP promoveu um programa de capacitação que incluía um programa
de treinamento em inglês instrumental para seus funcionários usando
a metodologia descrita nos parágrafos anteriores. Nestes dois anos
passaram pelo programa de inglês instrumental aproximadamente 1.000
funcionários. Conseguiu-se atender um número tão grande de pessoas
justamente porque o aprendizado da língua inglesa para leitura é
consideravelmente mais fácil. Além desta facilidade é possível se
ministrar o curso em salas maiores, com até cem alunos, o que é impensável
em um curso tradicional. Em cursos normais de inglês cada aluno deve
ter atenção especial do professor como pré-requisito indispensável
ao aprendizado.
Como produto deste treinamento foram criados vários materiais
didáticos, um dos quais é justamente um pequeno livro, já citado,
contendo as 750 palavras mais comuns da língua inglesa. O significado
de cada palavra é ilustrado com três exemplos em média, onde a palavra
é usada em contextos diferentes. Este pequeno manual está disponível
para download na Internet. Além deste manual, existem também outros
documentos que descrevem em detalhes como foi realizado o cálculo que
determinou estas palavras mais comuns (ver referências).
Além do aprendizado das palavras mais comuns, o interessado em aprender
o inglês para leitura, deve procurar intensificar o seu contato diário
com a língua inglesa. Para isso a Internet pode novamente vir em nosso
auxílio. Basta procurar nela pelo que nos interessa. Na Internet existe
informação de todos os tipos e para todos os gostos. Basta saber e
querer procurar.
No curso de inglês instrumental ministrado na Unicamp, para
suplementar o ensino em sala de aula e para manter o aluno em contato
diário com a língua inglesa, foi criada uma lista eletrônica chamada EFR
(English for Reading). Nesta lista é veiculada diariamente uma história,
preferencialmente engraçada (afinal, quem não gosta de uma boa piada?) ou
uma citação. As histórias são em inglês e as palavras mais incomuns são
comentadas. Desta forma os alunos aprendem todos os dias duas ou mais
palavras novas. Todos os dias. Em um ano este pequeno esforço diário pode
vir a fazer uma diferença. O curso acabou em 1997 mas a lista continua
enviando suas mensagens. Esta lista é hoje aberta a todos os internautas
e conta com vários participantes externos além dos participantes do
curso ministrado na Unicamp. Todas as mensagens já veiculadas na lista
EFR estão arquivadas na Web no endereço http://www.Dicas-L.unicamp.br ,
item "English for Reading".
O objetivo primordial do curso de inglês instrumental era demonstrar
que se é possível aprender inglês para leitura facilmente e despertar
o gosto pela leitura. Quanto mais se ler em inglês mais se aprende
o idioma, o que não é novidade nenhuma. Como vivemos no Brasil,
país de língua portuguesa, as nossas necessidades de utilizar outra
habilidade que não a leitura em inglês são bastante esporádicas. Mas não
precisamos parar por aí. A leitura serve também para desenvolver as outras
habilidades necessárias ao domínio da língua inglesa: a fala, a escrita e
a compreensão da língua falada. O principal é que em um período de tempo
bastante curto já estaremos habilitados a navegar pela Internet inteira
e não apenas pela pequena porção representada pela língua portuguesa.
Finalmente, queria lembrar a todos que aprender o inglês é bastante
fácil. Basta deixar de lado os preconceitos e traumas que temos
com a língua inglesa e realmente acreditarmos em nossa capacidade de
aprender. Não leva a nada guardar rancores de tentativas frustradas de
aprendizado ocorridas no passado. O domínio da língua inglesa é hoje o
nosso passaporte para um mundo de informações que podem nos ser úteis
tanto na esfera pessoal quanto profissional. Se você não domina a língua
inglesa o momento certo para começar é hoje. Consulte as referências
deste artigo, estude com calma a lista das palavras mais comuns e assine a
lista EFR. Você vai ver que sem fazer muita força em, pouco você estará
se locomovendo com desenvoltura cada vez maior pela Torre de Babel
reconstruída que é a Internet. Depois me escreva contando os resultados.
Referências
Notas
- A comparação da Torre de Babel com a Internet eu encontrei
em um artigo escrito por Luiz de Rezende Puech. Esta analogia, bastante
criativa, nunca mais me saiu da cabeça e aproveitei este artigo para
abordar o assunto a partir de uma ótica diferente.
- A história da Torre de Babel encontra-se na Bíblia, no livro de
Genesis, capítulo 11. Reproduzo a seguir alguns dos versículos da
história, tal como se encontra na Bíblia.
(Genesis 11:6) e o SENHOR disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma
linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo
que intentam fazer.
(Genesis 11:7) Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que
um não entenda a linguagem de outro. (Genesis 11:8) Destarte, o SENHOR
os dispersou dali pela superfície da terra; e cessaram de edificar a
cidade. (Genesis 11:9) Chamou-se-lhe, por isso, o nome de Babel, porque
ali confundiu o SENHOR a linguagem de toda a terra e dali o SENHOR os
dispersou por toda a superfície dela.