Entender como funciona a memória é o primeiro passo para podermos acessar e reter conhecimento com mais facilidade. Provavelmente, este deveria ser o primeiro tópico a ser ensinado em uma escola, pois existem técnicas milenares que permitem elevar o desempenho de nossa memória a patamares supostamente inatingíveis.

No mundo antigo, em que não existiam computadores, smartphones e todos estes dispositivos para onde estamos transferindo a nossa memória, a arte da memorização era amplamente praticada. Cíneas, embaixador de Pirro junto aos romanos, aprendeu em um só dia os nomes dos homens reunidos em assembleia, podendo cumprimentar a todos no dia seguinte por seus respectivos nomes. Temístocles (524 a.C. – 459 a.C.), foi um político e general ateniense. Sabia o nome de todos os 20.000 habitantes de Atenas.

Um dos relatos mais famosos diz respeito ao poeta grego Simônides (556 a.C. – 468 a.C.). Em um banquete oferecido pelo rei Céos, ao qual foi convidado para fazer um poema em sua homenagem, ausentou-se por alguns instantes do palácio, dirigindo-se ao jardim. Neste breve espaço de tempo o palácio desabou matando a todos que nele se encontravam. Os parentes desesperados não conseguiam reconhecer os mortos, porém Simônides recordava-se da roupa que os convidados usavam, bem como a sua localização dentro do palácio, e pôde assim identificar a todos. Estes são apenas alguns exemplos dos feitos prodigiosos que podemos realizar com a nossa memória e que não requerem nenhum tipo de inteligência especial, apenas o domínio de técnicas de memorização.

Super Memória

O Dr. Piotr Wozniak, da Polônia, é um profundo estudioso da memória e codificou suas descobertas em um programa mundialmente conhecido chamado SuperMemo, uma abreviação de Super Memory. Este programa toma como premissa o fato de que existe um momento ideal para praticar o que aprendemos. Se praticarmos antes da hora, estamos perdendo nosso tempo. Se praticamos tarde demais já teremos esquecido o que aprendemos e precisamos reaprender os conceitos. O momento exato para exercitar um conhecimento é exatamente o momento em que estamos prestes a esquecê-lo.

Este momento varia de pessoa para pessoa, mas o programa SuperMemo é capaz de identificar com precisão a hora certa que cada pessoa precisa praticar um conhecimento e desta forma reforçar o aprendizado.

Uma forma bem conhecida deste tipo de estudo é com o uso de cartões:

  • Na parte da frente do cartão escrevemos uma pergunta e na parte de trás escrevemos a resposta.
  • Para estudar, lemos a pergunta e em seguida respondemos. Viramos então o cartão para verificar nossa resposta.
  • Dividimos os cartões em duas pilhas: na primeira colocamos os cartões que conhecemos as respostas e na segunda pilha aqueles que erramos a resposta.
  • Os cartões da segunda pilha (aqueles que erramos) entram no jogo novamente para serem estudados, e continuamos da mesma forma dividindo os cartões em duas pilhas: uma pilha para os cartões que acertamos a resposta e outra para os cartões que ainda não conseguimos memorizar.
  • Continuamos assim até que consigamos responder a todas as perguntas de todos os cartões.

Esta é uma forma simplificada de explicar o funcionamento do programa SuperMemo, mas na realidade ele vai muito além. Na versão digital, você pode programar o número de cartões que quer estudar por dia, adequando à sua rotina e tempo disponível. Para cada uma das perguntas, você avalia a dificuldade encontrada para obter a resposta: errado, bom ou fácil. Com base em suas respostas, o programa decide então quando o cartão será apresentado novamente. Quanto mais facilmente você conseguir responder, maior o tempo para o cartão aparecer novamente. Se você errar, o cartão poderá ser apresentado logo em seguida ou então no dia seguinte, ou seja, aparecerão em menos tempo do que os cartões que você tem facilidade.

Todas estas métricas são calculadas pelo programa, tomando por base a sua avaliação e também o tempo que você leva para responder. O resultado? Um método 100% personalizado para o seu ritmo de aprendizado e que coloca a sua memória para trabalhar a seu favor!

A curva de esquecimento

O tempo que levamos para esquecer determinada informação segue um padrão: nós nos esquecemos de forma exponencial.

Fonte da imagem:https://www.supermemo.com/smcom/images/9-3-1-pt.pn…

A figura acima, obtida no portal do programa Supermemo, representa uma curva exponencial descendente, a chamada curva do esquecimento. No eixo Y temos a probabilidade de esquecimento, e no eixo X temos os dias. Quanto mais tempo se passa, se nada for feito, maior o esquecimento. Segundo o gráfico, depois de sessenta dias, caso não haja uma revisão, nos esquecemos completamente da informação aprendida.

O que o programa SuperMemo faz é nos expor à informação exatamente no momento em que estamos prestes a esquecê-la. Desta forma, em vez de continuar na curva descendente do esquecimento, a informação é reativada em nossas memórias. Sempre que a possibilidade de esquecer uma informação está prestes a ficar abaixo do patamar de 90%, o programa nos traz de volta a informação, reduzindo a probabilidade de esquecimento. Podemos ver também que o intervalo de dias entre os lembretes se amplia, até chegar um ponto em que a informação fica totalmente fixada em nossa memória e não mais a esquecemos.

O programa SuperMemo pode ser usado para memorizar qualquer tipo de informação, mas é particularmente famoso no ensino de idiomas. O algoritmo do programa se baseia em um padrão conhecido de funcionamento de nossa memória e o agendamento da exibição das palavras ocorre no momento em que estão prestes a serem esquecidas.

O programa SuperMemo é comercial, ou seja, precisamos pagar para utilizá-lo. A boa notícia é que existem diversas alternativas livres e gratuitas que implementam o mesmo algoritmo e que podem ser instaladas em tablets, smartphones e computadores, como Anki, Mnemosyne, memrise, AnyMemo, dentre outros.

Referências

  1. Como se consegue uma memória prodigiosa, Sálvio Aliu, 2ª Edição, 1º Volume, Livraria Progredior, Porto
  2. Anki home
  3. Want to Remember Everything You’ll Ever Learn? Surrender to This Algorithm

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2 comentários em “Como funciona a memória

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