Easy English Songs

Easy English Song | Scarborough Fair (Paul Simon e Art Garfunkel)

“Scarborough Fair” é uma das canções tradicionais inglesas mais conhecidas do mundo, embora muitas pessoas a associem exclusivamente à dupla Simon & Garfunkel. Sua história, entretanto, começou séculos antes do nascimento de Paul Simon e Art Garfunkel. Como ocorre com muitas canções populares transmitidas oralmente, não existe um compositor identificado. A letra e a melodia foram modificadas por sucessivas gerações de cantores, recebendo diferentes versos, refrões e arranjos conforme atravessavam as regiões da Inglaterra.

As origens da canção costumam ser relacionadas a “The Elfin Knight”, antiga balada escocesa registrada por volta de 1670 e posteriormente catalogada pelo estudioso Francis James Child. Nessa narrativa, um personagem propõe a uma jovem uma série de tarefas impossíveis, e ela responde exigindo que ele também realize desafios igualmente impraticáveis. Com o passar do tempo, os elementos sobrenaturais desapareceram de algumas versões, e a história se transformou em uma conversa indireta entre antigos amantes. Um deles pede a um viajante que encontre a pessoa amada e lhe transmita determinadas exigências, como confeccionar uma camisa sem costuras e lavar a peça em um poço sem água. Somente depois de cumprir essas tarefas impossíveis, ela poderia voltar a ser seu verdadeiro amor.

O nome da música faz referência à feira de Scarborough, uma importante reunião comercial realizada durante a Idade Média na cidade costeira de Scarborough, no norte da Inglaterra. A feira teria recebido autorização real no século XIII e atraía mercadores, compradores e viajantes de diversas regiões. Dentro da narrativa da canção, perguntar se alguém está indo à feira funciona como o início de uma mensagem destinada a uma pessoa que vive naquela localidade. A feira oferece, assim, um cenário reconhecível para uma história sobre afastamento, lembrança, orgulho e um amor que talvez jamais possa ser recuperado.

Um dos elementos mais marcantes da canção é o refrão formado pelos nomes de quatro ervas: salsa, sálvia, alecrim e tomilho. O significado exato dessa combinação permanece incerto. Ao longo dos séculos, essas plantas foram associadas a ideias como proteção, memória, fidelidade, coragem, cura e também a cerimônias religiosas e funerárias. Alguns intérpretes acreditam que o refrão preserve antigos simbolismos populares; outros consideram que as palavras tenham sido escolhidas principalmente por sua musicalidade e talvez tenham substituído expressões mais antigas cujo sentido se perdeu. Portanto, embora existam diversas interpretações poéticas, não há uma explicação histórica definitiva para a presença das quatro ervas.

No final do século XIX, o pesquisador inglês Frank Kidson publicou uma versão de “Scarborough Fair” em sua coletânea “Traditional Tunes”, de 1891. A melodia que se tornaria mais conhecida no século XX foi recolhida pelo compositor e pesquisador Ewan MacColl em 1947, a partir do canto de Mark Anderson, um mineiro aposentado de Middleton-in-Teesdale. MacColl e Peggy Seeger incluíram a canção no livro “The Singing Island”, publicado em 1960, contribuindo para sua circulação entre os músicos do renascimento folk britânico. (A trajetória histórica e as diferentes versões estão reunidas no registro da balada).

O cantor e violonista britânico Martin Carthy encontrou a música nessa coletânea, elaborou seu próprio acompanhamento de violão e a gravou em seu primeiro álbum, lançado em 1965. Sua interpretação foi decisiva para tudo o que viria depois. Durante o período em que Paul Simon viveu na Inglaterra e frequentou os clubes de música folk de Londres, ele conheceu Carthy e aprendeu com ele aquela versão da antiga balada. Bob Dylan também entrou em contato com o arranjo de Carthy, cuja influência pode ser percebida em “Girl from the North Country”. Décadas depois, Martin Carthy recordaria que, naquele ambiente, os músicos compartilhavam melodias e canções com bastante liberdade, embora a ausência inicial de reconhecimento por seu arranjo na versão de Simon & Garfunkel tenha provocado um desentendimento. Os dois se reconciliaram publicamente e cantaram a música juntos em Londres, em 2000. (O próprio Carthy contou essa história ao jornal “The Guardian”).

Em 1966, Simon & Garfunkel lançaram “Scarborough Fair/Canticle” no álbum “Parsley, Sage, Rosemary and Thyme”. O trabalho não foi uma simples gravação da balada tradicional. Paul Simon combinou seus versos com “Canticle”, uma adaptação de uma composição anterior chamada “The Side of a Hill”. Enquanto uma voz canta a história dos antigos amantes e das tarefas impossíveis, outra apresenta imagens relacionadas à guerra e à perda da inocência. Art Garfunkel teve participação importante na construção vocal e no contraponto entre as duas linhas melódicas. O resultado transformou uma antiga canção de amor em uma reflexão que também podia ser compreendida como crítica à guerra, tema especialmente relevante durante a década de 1960.

A delicadeza das harmonias de Simon & Garfunkel, o acompanhamento de inspiração renascentista e o contraste entre a balada antiga e a composição contemporânea deram à música uma atmosfera ao mesmo tempo serena, melancólica e inquietante. Em 1968, a gravação ganhou ainda mais projeção ao aparecer no filme “The Graduate”, dirigido por Mike Nichols. Depois de sua utilização no longa-metragem, “Scarborough Fair/Canticle” foi lançada como single e chegou ao 11º lugar da parada norte-americana “Billboard Hot 100” e ao quinto lugar no Canadá.

É importante fazer uma distinção quando se fala em premiações. “Scarborough Fair/Canticle” não recebeu individualmente um Grammy. A trilha sonora de “The Graduate”, da qual a gravação fazia parte, recebeu o Grammy de Melhor Trilha Sonora Original Escrita para Cinema ou Televisão, concedido a Paul Simon. Simon & Garfunkel conquistaram sete Grammys ao longo da carreira, mas esses prêmios estão relacionados principalmente a trabalhos como “Mrs. Robinson” e “Bridge over Troubled Water”. Portanto, é incorreto afirmar que “Scarborough Fair” tenha ganhado diretamente um Grammy de melhor canção ou de melhor interpretação folk. A relação oficial de prêmios da dupla confirma a premiação concedida à trilha de “The Graduate”. (Simon & Garfunkel — prêmios oficiais e arquivo oficial do Grammy).

Além de Simon & Garfunkel e Martin Carthy, a canção foi interpretada por muitos outros artistas. Entre eles estão Ewan MacColl, Peggy Seeger, Audrey Coppard, Marianne Faithfull, Sérgio Mendes & Brasil ’66, Sarah Brightman, Celtic Woman e Hayley Westenra. Cada intérprete ressaltou uma característica diferente da composição: alguns conservaram sua simplicidade folclórica, outros adotaram arranjos orquestrais, corais, clássicos ou próximos da música popular contemporânea. A versão de Sérgio Mendes, por exemplo, acrescentou elementos de jazz, pop e música brasileira, alcançando considerável sucesso nos Estados Unidos em 1968.

Mais do que uma composição pertencente a um único autor, “Scarborough Fair” é o resultado de uma longa criação coletiva. A canção nasceu da tradição oral, foi preservada por cantores anônimos, registrada por pesquisadores, reformulada por músicos folk e apresentada a um público mundial por Simon & Garfunkel. Sua inspiração central está na antiga ideia das provas impossíveis impostas entre amantes separados, uma imagem poderosa das condições, ressentimentos e expectativas que podem impedir uma reconciliação. Talvez seja justamente essa combinação de mistério, saudade e impossibilidade que explique sua permanência: apesar de carregar elementos de um mundo medieval, a música continua falando sobre sentimentos e conflitos que permanecem reconhecíveis muitos séculos depois.

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