Easy English Song | Blowin’ in the Wind (Bob Dylan)
“Blowin’ in the Wind” é uma das canções mais importantes e reconhecidas do século XX. Escrita por Bob Dylan em 1962, quando o compositor tinha apenas 20 anos, a música transformou uma sequência de perguntas aparentemente simples em uma profunda reflexão sobre liberdade, guerra, racismo, sofrimento e responsabilidade humana. Dylan apresentou uma primeira versão da canção em abril daquele ano, no Gerde’s Folk City, tradicional ponto de encontro da música folk em Greenwich Village, Nova York. Pouco depois, acrescentou uma nova estrofe e publicou a letra na revista “Broadside”. A gravação foi realizada em 9 de julho de 1962 e lançada no ano seguinte como faixa de abertura do álbum “The Freewheelin’ Bob Dylan”. O site oficial do artista credita integralmente a composição a Bob Dylan.
A letra foi construída por meio de perguntas retóricas. Dylan pergunta quantos caminhos uma pessoa precisa percorrer antes de ser reconhecida como ser humano, quantas vezes as balas de canhão ainda deverão voar e quantos anos algumas pessoas poderão existir antes de receberem liberdade. Em vez de apresentar respostas políticas ou explicar diretamente suas posições, o compositor repete que a resposta está “soprando ao vento”. A frase pode sugerir que as respostas já estão ao nosso redor e são evidentes para quem estiver disposto a percebê-las. Também pode indicar que elas permanecem indefinidas, escapando das mãos de uma sociedade que conhece seus problemas, mas frequentemente prefere ignorá-los.
A canção nasceu em um período especialmente tenso da história. Os Estados Unidos viviam o agravamento dos conflitos raciais, enquanto o movimento pelos direitos civis lutava contra a segregação e pela igualdade da população negra. Ao mesmo tempo, a Guerra Fria, a ameaça nuclear e o envolvimento norte-americano no Vietnã alimentavam uma atmosfera de medo e incerteza. Embora Dylan não mencione acontecimentos específicos, suas perguntas refletem essas inquietações. Essa característica ajudou a música a ultrapassar as circunstâncias em que foi criada: ela podia ser cantada em uma marcha pelos direitos civis, em um protesto contra a guerra ou em qualquer situação na qual seres humanos estivessem sendo privados de liberdade e dignidade.
Musicalmente, Dylan inspirou-se na tradição folk norte-americana, especialmente no antigo espiritual afro-americano “No More Auction Block”, cantado originalmente por pessoas que haviam escapado da escravidão. O próprio Dylan reconheceu posteriormente a influência dessa melodia. Ao recorrer a uma canção associada à experiência dos escravizados e criar sobre ela uma letra relacionada à liberdade, à paz e à indiferença diante do sofrimento, ele estabeleceu uma ligação entre as lutas do passado e as injustiças de seu próprio tempo. Também existem na composição ecos da linguagem bíblica, especialmente nas referências às pessoas que possuem olhos, mas se recusam a enxergar, e ouvidos, mas não querem escutar.
Apesar de Bob Dylan ter sido o autor e o primeiro a gravá-la, “Blowin’ in the Wind” tornou-se mundialmente conhecida principalmente por meio de Peter, Paul and Mary. O trio lançou sua versão em 1963, com harmonias vocais suaves e um arranjo mais acessível ao grande público. A gravação chegou ao segundo lugar da parada norte-americana “Billboard Hot 100” e vendeu mais de um milhão de cópias. Em agosto de 1963, Peter, Paul and Mary cantaram a música durante a Marcha sobre Washington, o histórico evento no qual Martin Luther King Jr. pronunciou o discurso “I Have a Dream”. A partir daquele momento, a composição ficou definitivamente associada ao movimento pelos direitos civis.
A canção recebeu interpretações de centenas de artistas, em diferentes estilos e idiomas. Joan Baez, uma das principais vozes da música de protesto e frequente parceira artística de Dylan, incorporou-a ao seu repertório. Sam Cooke ficou profundamente impressionado com a forma como um jovem compositor branco havia expressado os sentimentos e as aspirações da população negra. A influência de “Blowin’ in the Wind” contribuiu para que Cooke escrevesse “A Change Is Gonna Come”, outra obra fundamental do movimento pelos direitos civis. Stevie Wonder gravou sua própria versão em 1966 e levou a música novamente às paradas, alcançando o primeiro lugar na parada de rhythm and blues dos Estados Unidos. Entre os muitos outros intérpretes estão Marlene Dietrich, que a gravou em alemão, além de Judy Collins, Odetta, Neil Young, Dolly Parton, Elvis Presley e Bruce Springsteen.
A interpretação de Peter, Paul and Mary conquistou dois prêmios Grammy na cerimônia de 1964: Melhor Gravação Folk e Melhor Performance de um Grupo Vocal. A gravação original de Bob Dylan entrou para o Grammy Hall of Fame em 1994, enquanto a versão de Peter, Paul and Mary recebeu a mesma distinção em 2003. O álbum “The Freewheelin’ Bob Dylan”, que contém a música, foi selecionado em 2002 para o National Recording Registry da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, destinado à preservação de gravações consideradas cultural, histórica ou esteticamente importantes. A instituição descreve “Blowin’ in the Wind” como um poderoso e popular hino de protesto de sua época.
É importante observar que o Prêmio Nobel de Literatura concedido a Bob Dylan em 2016 não foi uma premiação específica para “Blowin’ in the Wind”. Entretanto, a canção representa perfeitamente a justificativa apresentada pela Academia Sueca, que reconheceu Dylan por criar novas formas de expressão poética dentro da tradição da música norte-americana. Poucas obras demonstram de maneira tão clara sua capacidade de reunir poesia, música popular e reflexão social.
Mais de seis décadas depois de sua criação, “Blowin’ in the Wind” continua atual porque as perguntas formuladas por Dylan ainda não receberam respostas definitivas. Guerras continuam acontecendo, povos ainda lutam por liberdade e muitas pessoas permanecem indiferentes ao sofrimento alheio. A força da canção está justamente em não dizer ao ouvinte o que pensar. Ela o obriga a olhar ao redor, reconhecer aquilo que está diante de seus olhos e decidir se continuará ignorando. A resposta pode estar soprando ao vento, mas cabe a cada geração ter disposição para ouvi-la.
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